Concerto de Natal, Dezembro de 2017

Foto: Detalhe berço em baixo relevo, escultura de madeira, Thomas Comploi. Italia. http://comploithomas.com/
Foto: Detalhe berço em baixo relevo, escultura de madeira, Thomas Comploi. Italia. http://comploithomas.com/
Programa do concerto:

G. Friedrich Händel (1685 – 1759) – Concerto grosso em si bemol maior, op. 7, n 6;
Arcangelo Corelli (1653 – 1713) – Concerto “Fatto per la notte di natale”, op. 6, n 8;
Francesco Geminiani (1680 – 1762) – Concerto grosso em ré menor “La follia”, op. 6, n 12; Tema com variações sobre a “Follia di Spagna”
Johann Adolph Hasse (1658 – 1709) – Fuga e Grave em sol menor
Antonio Vivaldi (1678 – 1741) – Nisi Dominus, RV 608 (Salmo 126) – Solista Paulo Mestre (Contratenor)

A Catedral Metropolitana de Vitória foi o palco do lançamento de um novo grupo musical no estado do Espirito Santo, A Trupe Barroca. Trata-se de uma pequena orquestra, com apenas onze integrantes, que trouxe a proposta, inédita em terras capixabas, de executar a chamada música antiga em instrumentos originais ou réplicas fiéis. O concerto de natal, realizado no último dia 23 de dezembro, um sábado, às 10 horas da manhã, ousou não só pelo ineditismo da proposta musical, mas, também, pela coragem em concorrer com todo o frisson que caracteriza uma antevéspera de Natal, quando as pessoas se preparam, em geral enlouquecidas, para as maratonas das festas de fim de ano. De fato, uma temeridade, porém vencida pelo público que compareceu e lotou com avidez de boa música a nossa bela catedral. O programa escolhido, por sua vez, revelou o desejo de se começar com pé direito, oferecendo ao público obras que fogem ao pieguismo populista e, entre elas algumas de difícil execução.

Maestro - Sérgio DiasA direção musical não poderia estar em melhores mãos, o competente maestro Sérgio Dias, uma das autoridades em música antiga no Brasil, que com seus gestos precisos e o controle total do grupo garantiu que a orquestra pudesse trazer para o público capixaba a atmosfera e a sonoridade perfeitas para se ouvir as obras o mais próximo da concepção de seus compositores. Diz-se de um maestro que ele deve ser avaliado não por suas performances nos concertos, mas pelos ensaios que dirige. Eu não assisti aos ensaios da Trupe Barroca, mas o concerto de natal apresentado só pôde nos revelar o quanto tais ensaios devem ter sido proveitosos para os músicos e bem conduzidos por seu regente.


“O que ouvimos na Catedral de Vitória foi música barroca de boa qualidade.”


A obra inicial, uma Fuga e Grave em sol menor, do compositor alemão Johann Adolph Hasse, foi uma execução de fôlego e virtuosismo, que deixou evidente, já de início, que a Trupe não estava para brincadeira.

Tiorba - José Eduardo Costa Silva Paulo Freitas, Brasil, 2016 (cópia de Vendelino Venere, 1587)O público, surpreso, compensou tanta coragem com palmas calorosas e, com os celulares em mão, registrava, a todo momento, tanto a performance da orquestra, quanto a presença de instrumentos “novos” como a Tiorba, a Viola da Gamba e a Guitarra Barroca. Outras obras se seguiram, o Concerto Grosso, opus 6, nº 7 de Händel, peça também difícil, sustentada pela orquestra com bravura; um Concerto Grosso de Geminiani, na forma de variações sobre o conhecido tema de La Folia, que teve como solistas os jovens Wagner Souza, Leonardo Gonçalves e Gabriel Camargo. Se as obras anteriores surpreenderam pela bravura, essa, em especial, chamou a atenção pela delicadeza e elegância de sua performance, seguramente foi a melhor execução do programa.

Paulo Mestre, contratenorA apresentação seguiu com o festejado concerto “fatto per la notte di natale”, do compositor italiano Arcangelo Corelli e, por fim, com a obra mais esperada, o Nisi Dominus (salmo 126) de Antonio Vivaldi, que teve como solista um dos maiores contratenores brasileiros, o curitibano Paulo Mestre, que emprestou à obra em questão sua voz leve, límpida e firme, deixando o público em profundo silêncio. O trecho cum dederit juntamente com o gloria patris, sustentado pelo belíssimo solo de uma Viola da Gamba, foram os pontos altos da execução dessa linda obra.

O público soube reconhecer e recompensar a qualidade do trabalho da Trupe Barroca, aplaudindo com um entusiasmo que há muito não se via em apresentações de música erudita por aqui. A orquestra e o cantor retribuíram com um lindo bis, Cara Sposa de Händel, talvez uma das melodias mais tocantes compostas pelo compositor e que, na voz de Paulo Mestre, comoveu os presentes, provocando mais aplausos emocionados. Ao fim exato do concerto de natal, os sinos da velha catedral tocaram, como de costume, ao meio dia. Certamente foi o prenúncio de que A Trupe Barroca veio para ficar e construir uma trajetória de sucesso. O entusiasmo e os comentários do público não deixam dúvida: falta em nosso estado um trabalho com essa qualidade.


“Longa vida à Trupe Barroca.”


Luiz Cláudio Gobbi da Silva, sociólogo e ator

 

Critica do primeiro concerto de A Trupe Barroca, por Luiz Cláudio Gobbi da Silva, sociólogo e ator